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Desafios da economia global vão exigir preparação das exportadoras, avalia Welber Barral, palestrante do 1º Congresso Brasileiro de Comércio Exterior do Sistema FIERGS

Palestrante do 1º Congresso Brasileiro de Comércio Exterior do Sistema FIERGS, que ocorre nos dias 25 e 26 de novembro, em formato online e presencial, no teatro da entidade, em Porto Alegre, o Presidente do Instituto Brasileiro de Comércio Exterior e Investimentos e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil (2007–2011), Welber Barral, avalia que a nova configuração mundial – marcada pela priorização de acordos bilaterais em vez do multilateralismo – exigirá intensa preparação das empresas que desejam vender para o exterior. Ele considera ainda que um possível acordo para reduzir as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, que têm afetado diversas indústrias, não será simples.

“As empresas precisam acompanhar as novas regras e acordos, como o Mercosul–EFTA, que já oferece boas oportunidades em mercados como Suíça e Noruega. Também é importante observar a evolução das tarifas globais e os acordos firmados por outros países com os EUA, além das tarifas com aquele país. Por fim, é essencial investir em diversificação e aumento da competitividade, pois o cenário será altamente disputado”, avaliou. 

Sobre o congresso do Sistema FIERGS, ele considera que o evento é “extremamente relevante neste momento, não só pelo período de transição e de desafios, mas principalmente porque as empresas estão preparando seus orçamentos e suas agendas para o próximo ano. Teremos um debate de alto nível.”

A palestra do ex-secretário de Comércio Exterior, intitulada “As Mudanças na Ordem Geopolítica Mundial e o Papel dos Estados Unidos: Perspectivas para o Brasil”, será no dia 25, às 15h50min.

Confira a entrevista.

As relações comerciais estão mudando, principalmente com as recentes políticas tarifárias do presidente norte-americano, Donald Trump. Quais são os principais riscos para o Brasil na nova configuração do comércio internacional?
Este foi um ano bastante conturbado nesse sentido. Desde julho, o Brasil foi fortemente afetado – não apenas por medidas diretas (tarifas adicionais de 40%), mas também por investigações como a da Seção 301, que pode atingir novos setores exportadores. Além disso, há medidas da Seção 232 e ações antidumping que impactam produtos brasileiros independentemente das negociações com os EUA. Outro risco é a celebração de acordos comerciais entre os Estados Unidos e outros países sem a participação do Brasil, o que pode gerar desvio de comércio e reduzir nossa competitividade.

É possível falar em oportunidades para o Brasil neste momento?
Sim. A proliferação de acordos de livre-comércio, em parte impulsionada pelas medidas norte-americanas, pode abrir novas oportunidades. O Brasil pode fortalecer relações com regiões ainda pouco exploradas e aproveitar acordos em andamento, como os firmados com o EFTA (que inclui países como Suíça e Noruega), os Emirados Árabes e a União Europeia. O essencial é compreender o cronograma e identificar os setores que mais podem se beneficiar.

Quais setores brasileiros têm maior potencial de expansão internacional nos próximos anos?
O Brasil tem vantagens naturais em diversas áreas: produção de hidrogênio e energias renováveis, instalação de data centers, exploração de urânio e energia nuclear, além dos créditos de carbono. Também possui 25% das reservas mundiais de terras raras, mas ainda carece de investimento, tecnologia e regulação para explorá-las. Essas possibilidades estão impedidas pela nossa lerdeza institucional.

Sobre as tarifas de 50% impostas pelos EUA a produtos brasileiros, é possível falar em um acordo ainda este ano?
A cada dia há novas avaliações, conforme os desdobramentos. As conversas entre os presidentes foram positivas, mas a negociação está apenas começando. Os temas em pauta são complexos, como terras raras e regulamentação de comércio digital, e envolvem diferentes órgãos do governo brasileiro, estados e até o Congresso Nacional. Portanto, não será um processo simples nem rápido. A indústria brasileira precisa estar atenta para definir estratégias durante e após a negociação. Do lado brasileiro, os principais interesses são a redução da tarifa diferenciada de 40% e a eliminação das sanções contra autoridades nacionais, que geram entraves diplomáticos e burocráticos.

Os Estados Unidos devem buscar mais vantagens comerciais?
Sim. Os EUA devem apresentar várias demandas, como ampliação de acesso a mercado, propriedade intelectual, patentes, tarifas específicas e questões ligadas à Seção 301, incluindo acesso a mercado, e terras raras.

O acordo Mercosul–União Europeia avançou em 2025. Pode servir como alternativa à dependência dos EUA?
O acordo Mercosul-União Europeia reúne grandes economias e uma população expressiva dos dois lados do Atlântico. É um acordo abrangente, que vai além das tarifas: envolve investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual, regras de origem e indicações geográficas. Seu alcance regulatório é amplo, o que o torna extremamente relevante. Ele oferece ao Brasil e aos países do Mercosul uma alternativa estratégica para reduzir a dependência das tensões entre Estados Unidos e China. O potencial de atração de investimentos é grande, mas o processo não é imediato. O acordo ainda precisa ser ratificado pelo parlamento europeu e dos países do Mercosul, seguido por uma fase de implementação e desgravação tarifária que pode levar até 15 anos.

Enquanto novos acordos não entram em vigor, quais estratégias as empresas brasileiras devem adotar?
O primeiro passo é se atualizar. As empresas precisam acompanhar as novas regras e acordos, como o Mercosul–EFTA, que já oferece boas oportunidades em mercados como Suíça e Noruega. Também é importante observar a evolução das tarifas globais e os acordos firmados por outros países com os EUA. Por fim, é essencial investir em diversificação e aumento da competitividade, pois o cenário será altamente disputado.

O que mudou desde o período em que o senhor foi secretário de Comércio Exterior (2007–2011)?
O Brasil ainda enfrenta desafios estruturais: altos custos logísticos e burocráticos e insegurança tributária. Houve avanços em digitalização e concessões, e a reforma tributária pode trazer melhorias, mas o ritmo é lento. O mundo não espera. A burocracia e a agenda eleitoral acabam atrasando o progresso necessário.

Publicado sexta-feira, 14 de Novembro de 2025 - 16h16