As relações comerciais estão mudando, principalmente com as recentes políticas tarifárias do presidente norte-americano, Donald Trump. Quais são os principais riscos para o Brasil na nova configuração do comércio internacional?
Este foi um ano bastante conturbado nesse sentido. Desde julho, o Brasil foi fortemente afetado – não apenas por medidas diretas (tarifas adicionais de 40%), mas também por investigações como a da Seção 301, que pode atingir novos setores exportadores. Além disso, há medidas da Seção 232 e ações antidumping que impactam produtos brasileiros independentemente das negociações com os EUA. Outro risco é a celebração de acordos comerciais entre os Estados Unidos e outros países sem a participação do Brasil, o que pode gerar desvio de comércio e reduzir nossa competitividade.
É possível falar em oportunidades para o Brasil neste momento?
Sim. A proliferação de acordos de livre-comércio, em parte impulsionada pelas medidas norte-americanas, pode abrir novas oportunidades. O Brasil pode fortalecer relações com regiões ainda pouco exploradas e aproveitar acordos em andamento, como os firmados com o EFTA (que inclui países como Suíça e Noruega), os Emirados Árabes e a União Europeia. O essencial é compreender o cronograma e identificar os setores que mais podem se beneficiar.
Quais setores brasileiros têm maior potencial de expansão internacional nos próximos anos?
O Brasil tem vantagens naturais em diversas áreas: produção de hidrogênio e energias renováveis, instalação de data centers, exploração de urânio e energia nuclear, além dos créditos de carbono. Também possui 25% das reservas mundiais de terras raras, mas ainda carece de investimento, tecnologia e regulação para explorá-las. Essas possibilidades estão impedidas pela nossa lerdeza institucional.
Sobre as tarifas de 50% impostas pelos EUA a produtos brasileiros, é possível falar em um acordo ainda este ano?
A cada dia há novas avaliações, conforme os desdobramentos. As conversas entre os presidentes foram positivas, mas a negociação está apenas começando. Os temas em pauta são complexos, como terras raras e regulamentação de comércio digital, e envolvem diferentes órgãos do governo brasileiro, estados e até o Congresso Nacional. Portanto, não será um processo simples nem rápido. A indústria brasileira precisa estar atenta para definir estratégias durante e após a negociação. Do lado brasileiro, os principais interesses são a redução da tarifa diferenciada de 40% e a eliminação das sanções contra autoridades nacionais, que geram entraves diplomáticos e burocráticos.
Os Estados Unidos devem buscar mais vantagens comerciais?
Sim. Os EUA devem apresentar várias demandas, como ampliação de acesso a mercado, propriedade intelectual, patentes, tarifas específicas e questões ligadas à Seção 301, incluindo acesso a mercado, e terras raras.
O acordo Mercosul–União Europeia avançou em 2025. Pode servir como alternativa à dependência dos EUA?
O acordo Mercosul-União Europeia reúne grandes economias e uma população expressiva dos dois lados do Atlântico. É um acordo abrangente, que vai além das tarifas: envolve investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual, regras de origem e indicações geográficas. Seu alcance regulatório é amplo, o que o torna extremamente relevante. Ele oferece ao Brasil e aos países do Mercosul uma alternativa estratégica para reduzir a dependência das tensões entre Estados Unidos e China. O potencial de atração de investimentos é grande, mas o processo não é imediato. O acordo ainda precisa ser ratificado pelo parlamento europeu e dos países do Mercosul, seguido por uma fase de implementação e desgravação tarifária que pode levar até 15 anos.
Enquanto novos acordos não entram em vigor, quais estratégias as empresas brasileiras devem adotar?
O primeiro passo é se atualizar. As empresas precisam acompanhar as novas regras e acordos, como o Mercosul–EFTA, que já oferece boas oportunidades em mercados como Suíça e Noruega. Também é importante observar a evolução das tarifas globais e os acordos firmados por outros países com os EUA. Por fim, é essencial investir em diversificação e aumento da competitividade, pois o cenário será altamente disputado.
O que mudou desde o período em que o senhor foi secretário de Comércio Exterior (2007–2011)?
O Brasil ainda enfrenta desafios estruturais: altos custos logísticos e burocráticos e insegurança tributária. Houve avanços em digitalização e concessões, e a reforma tributária pode trazer melhorias, mas o ritmo é lento. O mundo não espera. A burocracia e a agenda eleitoral acabam atrasando o progresso necessário.


